Sônia
Elisa Marchi Gonzatti |
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Colecionador de Meteoritos
Texto
de autoria do Sr. Hardy Grunewaldt, Publicado no Jornal O Informativo
de 17.08.1982. Eram 16h30min numa límpida e amena tarde de inverno,
dia 16 de agosto, 1937. Animada, desenrolava-se a festa em honra ao padroeiro
São Roque, na então pacata vila de Putinga, município
de Encantado - RS. Improvisamente um forte estrondo, precedido de um trovão,
prolongado e ensurdecedor, fez com que todos se entreolhassem surpreendidos
e atemorizados.
Que havia acontecido? Queda dum avião? Um raio? Um "fulmine
a ciel sereno"? (segundo a expressão italiana). Muitoas foram
as hipóteses enquanto logo a seguir o céu obscurecia pela
presença de uma nuvem escura decorrente dos efeito de um fenômeno
celeste.
Neste preciso momento, o Rio Grande do Sul testemunhava um excepcional
e maravilhoso acontecimento: a queda de um meteorito.
No mundo inteiro são raríssimas as pessoas que em toda sua
vida tenham presenciado a queda de um corpo extraterreno. Vagando pelo
espaço sideral, temos bilhoes de corpos celestes de tamanho e peso
variáveis, que circulam em nosso sistema planetário. Os
mais comuns são representados pelos meteoros, que nas noites claras
nos emocionam quanto subitamente brilham e silenciosamente cruzam o firmamento
para logo desaparecerem. Desde os tempos mais recuados, a luminosidade
dos meteoros sugeria aos homens primitivos que a esplêndida ocorrência
luminosa devia ser uma mensagem dos deuses. Temos a obrigação
de lembrar uma sugestão da semântica: o verbo 'considerar'
em seu significado originário, quer dizer simplesmente: contemplar
as estrelas. Aquelas estrelas que Bilac 'ouvia', num dos mais belos momentos
de elevada poesia.
Representam eles os pequenos mensageiros do espaço, cantados desde
os primórdios do homem e nada mais representam do que algumas gramas
de matéria cósmica, que atraída pelo nosso planeta,
penetram a altíssima velocidade (25 a 75 km/s) no manto protetor
da terra representado pela atmosfera. Ali ionizam o ar numa altura que
varia de 100 a 45 km de altura, produzindo a intensa luminosidade, ao
voltar a atmosfera a seu equilíbrio original. Normalmente essas
partículas se desintegram e caem sobre a terra em forma de pó
interestelar, do qual a terra recebe milhares de toneladas anuais.
O meteorito de PUTINGA nada mais foi do que parte dessa matéria
interestelar, cuja massa conseguiu vencer a barreira do ar e lançar-se
sobre uma vasta região ao redor de Putinga.
Tamanho foi o fenômeno que pôde ser visualizado a mais de
150 km de distância. o estrondo foi ouvido por moradores dos municípios
de soledade, Arroio do Meio, Lajeado, Estrela e Bom retiro. A queda foi
observada pelo autor, da cidade de Candelária. Frações
de segundos foram suficientes para que na trajetória daqueda uma
cauda de fumaça de uns 15 km se formasse e permanecesse visível
até o anoitecer daquele límpido céu de inverno.
Passadas as primeiras emoções as hipóteses sobre
o acontecimento foram surgindo. As circunstâncias do súbito
estrondo, acompanhado pela intensa fumaça pardacenta que encobriu
Putinga e arredores, não deixava dúvidas sobre o raro fenômeno
celeste: a queda dum meteorito.
O doutor Vicenzo Guaragna, médico italiano ali domiciliado, foi
taxativo: 'isto só pode ter sido um meteorito", opinião
acompanhada pelo pároco Domingos Carlino. Mais tarde apareceram
as primeiras testemunhas oculares que imformaram terem visto pedaços
de pedra caindo do céu, projetando-se nas propriedades dos senhores
José Marchese, Antonio Noatto, José Secco e outros.
Sob a iniciativa do então subprefeito dePutinga, Hermínio
Cé, hoje residente em Arroio do Meio, iniciou-se, no dia seguinte,
a procura das pedras, tendo sido desenterradas, na propriedade de José
Marchese, os maiores pedaços, encravados no solo, numa profundidade
de até dois metros. A precipitação de milhares de
fragmentos menores atingiu também Ilópolis e parte do município
de Soledade, onde posteriormente muitíssimos fragmentos foram recolhidos
pela população.
É interessante acrescentar que explosão de um meteorito
geralmente se verifica a grande altura, entre 10 a 30 mil metros, enquanto
o fenômeno luminoso só se faz presente entre os 45 a 100
mil metros.
O interesse despertado na época empolgou todo o território
gaúcho. o Diário de Notícias destacou um repórter
que colheu os primeiros informes publicados com destaque nos dias 18 e
19 de agosto de 1937. O então prefeito, Demétrio Costi,
fez chegar a Porto Alegre dois fragmentos de aproximadamente 45 a 55 kg,
que ficaram expostos no saguão do jornal, em frente da atual Praça
da Alfândega.
Com o passar dos anos o importante acontecimento cósmico entrou
no esquecimento, embora muitas das antigas testemunhas oculares, ainda
lembram com emoção "a pedra que caiu do céu".
Cálculos superficiais deixam entrever que o meteorito de PUTINGA
é um aerolito condrítico, foi o maior que se tem notícia
entre os caídos em terras brasileiras. Dos aproximados 200 kg colhidos
pela população local, supõe-se que mais de 1000 kg
devem ainda estar espalhados em milhares de pequenos fragmentos num grande
raio ao redor da cidade de Putinga.
Os extensos pinheirais e as verdejantes matas que cobriam, naquela época,
toda aquela região devem ainda hoje guardar no seu seio, o que
não foi encontrado na época da queda. Dificilmente poderiam
ser hoje reconhecidos, pois a oxidação atmosférica,
chuvas eventos tende alterar as características exteriores, que
com o tempo, no caso do meteorito de Putinga, adquirem um aspecto de pedra
granítica.
Há recém dois séculos que a ciência oficial
reconhece que pedras possam cair do céu. A explosão idêntica
de um meteorito que no ano 1803 se dividiu em milhares de fragmentos na
região francesa de Laigle (Orne), demonstrou aos cientistas incrédulos
que a chuva de materiais vindos do céu não era ilusão
popular. Muitos séculos antes, artesãos usavam já
material celeste para fabricação de utensílios cotidianos.
Desejamos aqui lembrar e expressar nosso reconhecimento ao Hermínio
Cé, que há vinte anos, nos acompanhou aos lugares da queda
do meteorito, fornecendo-nos alguns fragmentos que puderam ser enviados
a várias instituições científicas mundiais
paraseu estudo e conservação, contribuindo desse modo para
o patrimônio científico da ciência cósmica.
Foram assim, aquinhoados o British Museum de Londres, que em seu catálogo
sobre os "Meteoritos Mundiais" em 1964 fez constar em suas páginas
"O PUTINGA", com o primeiro estudo pormenorizado, feito por
Mosse Hey. Outros fragmentos encontram-seno Rio de Janeiro (Museu Nacional),
em Nova York, Washington, Passadena (Califórnia), Roma, Hamburgo
e Munique.
Das duas peças originais que vieram a Porto Alegre, uma de 45 kg
encontra-se no Museu de Geologia, prof. L. Englert, em POA, da otura não
temos notícias.
Putinga é hoje conhecida no mundo científico que se dedica
ao estudo do cosmos. Dezenas de análises e publicações
têm aparecido na Europa e USA, ajudando a ampliar os conhecimentos
científicos a respeito dos meteoritos. Seu número certamente
irá crescendo, pois a curiosidade de saber algo a respeito do infinito
que nos cerca, nunca encontrará um ponto final.
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